O Banco Central informou, nesta terça-feira (6 de outubro de 2026), que passará a divulgar mensalmente indicadores sobre os reajustes salariais negociados em convenções coletivas de trabalho. Para quem planeja orçamento de operações, isso significa um termômetro oficial e recorrente do custo de mão de obra formal no país, algo que hoje pesa diretamente em contratos de frete, armazenagem, operação logística terceirizada e mão de obra industrial.
Até agora, esse tipo de informação ficava pulverizado em pesquisas privadas, boletins setoriais ou só aparecia quando o sindicato da categoria fechava o acordo do ano. Com a série mensal do BC, a liderança de supply chain ganha um dado público e padronizado para antecipar pressão de custo antes mesmo de o fornecedor repassar o reajuste no próximo contrato.
As informações estão em um boxe do Relatório de Política Monetária de setembro de 2026 e na Nota técnica 60, ambos no site do BC, segundo o Valor Econômico. Os indicadores reúnem reajustes nominais e reais, a participação das convenções com aumentos acima, abaixo ou iguais à inflação, e a quantidade de instrumentos coletivos usados nos cálculos. As estatísticas cobrem convenções de todas as regiões do país e passam a ser atualizadas regularmente no Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS), a mesma plataforma onde o mercado já acompanha câmbio, juros e crédito.
O chefe do Departamento Econômico (Depec) do BC, Ricardo Sabbadini, explicou o racional por trás da série:
Os indicadores construídos a partir das convenções coletivas oferecem uma visão abrangente dos reajustes negociados no setor privado formal. Os resultados mostram que a inflação passada continua sendo uma referência importante nas negociações e ajudam a avaliar como as condições do mercado de trabalho influenciam a dinâmica salarial no país. (autor) Ricardo Sabbadini, chefe do Departamento Econômico (Depec) do Banco Central
O estudo publicado no boxe do relatório de setembro mostra que os reajustes pactuados têm elevada aderência à inflação passada, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). O BC faz uma ressalva importante: não existe obrigação legal de reposição integral da inflação em convenção coletiva, mas na prática o índice de preços segue sendo a referência central usada por empregadores e trabalhadores na mesa de negociação.
Contratos de prestação de serviço logístico, operação de armazém e mão de obra terceirizada costumam embutir cláusula de reajuste atrelada a dissídio da categoria ou a índice de preços. Quando esse reajuste chega, normalmente vem como fato consumado: o fornecedor comunica o novo valor e o comprador tem pouca margem de negociação porque o acordo coletivo já foi assinado. Um indicador mensal, público e granular por participação acima/abaixo/igual à inflação muda esse jogo de informação.
Na prática, dá para a área de compras:
A série divulgada pelo BC é nacional e não discrimina por setor específico como transporte, armazenagem ou indústria de bens de consumo, o que limita a aplicação direta para quem precisa do número da categoria exata que atende sua operação. O Valor não detalha se o Depec pretende abrir a granularidade por setor em versões futuras da nota técnica, nem qual a periodicidade exata de atualização dentro de cada mês. Para o comprador que lida com múltiplos fornecedores de mão de obra intensiva, o indicador nacional funciona como piso de referência macro, mas não substitui o acompanhamento da convenção coletiva específica da categoria do fornecedor contratado.
Ainda assim, ter um indicador oficial e recorrente é um avanço em relação ao cenário anterior, em que a área de supply chain só descobria o tamanho do reajuste salarial do setor quando o contrato já estava para ser renovado. Vale acompanhar a série no SGS do Banco Central e cruzá-la com os indicadores setoriais que o Portal do Supply Chain já cobre, como os boletins de custo de frete e os levantamentos de mão de obra em armazenagem.