Uma transportadora pode apresentar emissões menores porque transportou menos carga, percorreu outra rota ou usou um cálculo diferente — não necessariamente porque ganhou eficiência. Para calcular emissões do transporte de cargas e comparar propostas, o contratante precisa definir o perímetro, documentar os dados e separar emissões totais de intensidade.
Defina quais operações entram na conta
Comece por uma relação dos trechos contratados: coleta, transferência, entrega e eventuais retornos. Identifique quem executa cada etapa, inclusive transportadoras subcontratadas. A mesma viagem não deve aparecer novamente apenas porque há intermediários na contratação.
No enquadramento do GHG Protocol, frete contratado não é automaticamente categoria 9 do Escopo 3. Serviços de transporte comprados pela empresa, inclusive determinadas entregas de produtos vendidos, podem integrar a categoria 4. Já o transporte de produtos vendidos não adquirido pela empresa pode se enquadrar na categoria 9. A classificação exige examinar a operação e quem compra o serviço, conforme o padrão de Escopo 3.
Defina também se o cálculo cobre apenas o uso do combustível ou inclui sua produção e distribuição. Misturar esses limites compromete a comparação.
Monte uma coleta mínima com evidências
Peça à transportadora uma base por viagem ou trecho contendo:
- combustível consumido, tipo e período correspondente;
- distância percorrida e fonte do registro;
- peso efetivamente transportado;
- ocupação do veículo, indicando se medida por peso ou volume;
- deslocamentos vazios e existência de carga compartilhada.
Combine responsabilidades: o transportador fornece registros operacionais e identifica subcontratados; o contratante reconcilia embarques, verifica cobertura e registra lacunas. Solicite evidências como abastecimentos, telemetria, documentos de transporte e memória de cálculo. Abastecimento isolado não comprova consumo de uma viagem específica.
Escolha o método conforme os dados disponíveis
Quando há consumo de combustível rastreável
A estrutura básica é:
Emissões = combustível consumido × fator de emissão compatível.
Se o consumo estiver em litros, o fator deve usar uma unidade correspondente, como kg CO₂e/litro. Documente fonte, versão, combustível, gases abrangidos e limite do fator. Não apresente um resultado apenas de CO₂ como se necessariamente representasse todos os gases de efeito estufa.
Para cargas compartilhadas, calcule as emissões da operação e aplique uma regra de rateio coerente com o serviço. Massa-distância é uma possibilidade; cargas limitadas por volume podem exigir outro critério, devidamente justificado.
Quando existem apenas dados de atividade
A alternativa é estimar:
Atividade (t·km) = massa transportada em toneladas × distância em quilômetros.
Emissões = atividade × fator em kg CO₂e/(t·km).
Escolha um fator documentado e compatível com modal e operação. Verifique se ele já incorpora ocupação média e viagens vazias antes de acrescentar ajustes, evitando dupla contagem. A orientação de cálculo do GHG Protocol é uma referência para estruturar a metodologia.

Exemplo hipotético, sem fator numérico: duas cargas compartilham o mesmo trecho. Num rateio por massa-distância, a parcela da carga A corresponde a suas toneladas-quilômetro divididas pela soma das toneladas-quilômetro das cargas. Multiplica-se essa participação pelas emissões da operação. Se houver desembarques intermediários, o cálculo deve distinguir os trechos.
Compare serviço, intensidade e qualidade dos dados
Emissões absolutas mostram o total atribuído ao frete. Intensidade relaciona emissões à atividade, por exemplo, em kg CO₂e/t·km. Apresente ambas: transportar menos pode reduzir o total sem melhorar a eficiência.
Compare rotas, modais, prazos, ocupação e limites equivalentes. Identifique resultados medidos e estimados, além da parcela da operação coberta. Um número mais preciso não significa, sozinho, desempenho melhor.
Transforme o diagnóstico em gestão do frete
Inclua nos contratos campos obrigatórios, evidências, periodicidade, regras de rateio e comunicação de mudanças metodológicas. A conferência pode acompanhar a auditoria de fretes.
Avalie consolidação de cargas, redução de viagens vazias e mudança de modal sem ignorar prazo e nível de serviço. Antes de anunciar redução, compare períodos com metodologia consistente: trocar o fator ou ampliar a coleta pode alterar o resultado sem representar melhoria operacional.
Este conteúdo foi produzido com apoio de inteligência artificial e revisado pela equipe editorial da Live University.
Clarissa Monteiro Vilhena é a especialista de ESG do Portal do Supply Chain. Cobre escopo 3, due diligence de fornecedores, rastreabilidade e as regras internacionais que chegam à cadeia brasileira pela exigência do cliente. Antes de publicar uma meta, pergunta qual é a linha de base e quem verificou.
