Portal do Supply Chain

Canal do Panamá: LoTSA 3.0 inclui eclusas Panamax

Escrito por Rodrigo Tavares Lins | 06/10/2026 01:30

A Autoridade do Canal do Panamá (ACP) abre a partir de novembro leilões para reservar com antecedência vagas de trânsito também nas eclusas Panamax, menores, depois de um ano só cobrindo as Neo-Panamax. A medida mira reduzir a dependência do leilão diário, que já pagou US$ 5,3 milhões por uma única passagem.

O gargalo

A ACP vem adotando medidas para garantir a sustentabilidade das operações diante de condições climáticas que afetam a disponibilidade de água para operar as eclusas, incluindo cortes nas vagas diárias de trânsito ligados ao fenômeno El Niño, segundo a própria autoridade. Quem dependia de passagem garantida passou a correr risco real de fila, atraso de escala e perda de janela de porto do outro lado.

Essa escassez empurrou parte da demanda para o sistema diário de reservas e leilões da ACP, que opera por lance e não garante vaga com antecedência. O resultado foram preços recordes: segundo o Seatrade Maritime, um navio de GLP pagou US$ 5,3 milhões em 1º de setembro de 2026 para furar a fila, o maior valor já pago nesse sistema. Em agosto, o porta-contêineres Seaspan Benefactor, de 10.100 TEU, pagou US$ 4,6 milhões, e em abril um navio gaseiro, o Gas Virgo, pagou US$ 4 milhões.

Esses valores mostram o tamanho do problema para quem roda linha regular pelo canal: sem reserva garantida, o custo de uma única passagem pode superar o de vários dias de afretamento do navio. É esse o gargalo que a ACP tenta resolver ampliando o programa de reserva de longo prazo.

A solução

A ACP lançou em setembro de 2025 o Long-Term Slot Allocation Programme (LoTSA), que permite a clientes reservar com meses de antecedência vagas de trânsito nas eclusas Neo-Panamax, as maiores, construídas na expansão do canal e usadas por navios de até cerca de 14 mil TEU. A nova fase, chamada LoTSA 3.0, cobre o período de 3 de janeiro a 3 de abril de 2027, a estação seca, quando a disponibilidade de água é mais crítica.

A novidade anunciada em 6 de outubro de 2026 é que, pela primeira vez, a ACP estende esse modelo também às eclusas Panamax, menores e mais antigas, num programa piloto. O mecanismo é o mesmo: leilão de lances fechados (sealed-bid), com os mesmos critérios de alocação, seleção e desempate já usados no programa Neo-Panamax, segundo a ACP.

O calendário dos leilões já está marcado:

  • Leilão LoTSA Neo-Panamax: 17 de novembro de 2026
  • Leilão piloto LoTSA Panamax: 24 de novembro de 2026

O programa mantém os pacotes segmentados que já existiam no LoTSA, permitindo que cada cliente escolha entre certeza garantida ou mais flexibilidade:

  • FixContainer e FlexContainer, para linhas de contêiner
  • FixGas, FlexGas e FlexGas+, para navios gaseiros
  • FlexSlot+, pacote de flexibilidade mais ampla

O número

A diferença de escala entre as duas eclusas aparece nos números divulgados pela ACP e mostra por que a Panamax, mesmo menor, ainda pesa na operação:

ProgramaPacotes/vagasBerços totaisNorte / SulRitmo
LoTSA Neo-Panamax36 slots270 berços165 norte / 105 sul3 berços/dia
LoTSA Panamax (piloto)51 pacotes288 slots147 norte / 141 sul3 slots/dia

O restante da capacidade diária segue sendo oferecido pelo sistema padrão de Reservas e Leilões, o mesmo em que os preços recordes de GLP e contêiner foram pagos este ano. Ou seja, a reserva de longo prazo não substitui o leilão diário, ela reduz o volume de navios que precisam disputar ali.

Impacto regional

O Canal do Panamá concentra o tráfego Ásia, costa leste e golfo dos Estados Unidos, além de boa parte do movimento de GLP e GNL que sai do golfo americano rumo ao Pacífico. É nessa rota que o aperto de 2026 mais doeu, como mostram os três leilões recordes citados pelo Seatrade Maritime, todos com navios gaseiros ou porta-contêineres de grande porte.

Para operações brasileiras, o efeito chega indireto mas real: fretamento, escala e preço de bunker no canal entram na precificação de frete marítimo em rotas que conectam a América do Sul a mercados asiáticos via transbordo em portos americanos, e qualquer disputa por vaga ali pressiona para cima o custo de capacidade em toda a cadeia. Quem embarca GLP, químicos ou carga em contêiner com conexão por esse corredor sente o reflexo mesmo sem passar diretamente pelas eclusas.

O que replicar

Para quem planeja logística marítima com exposição ao canal, o movimento da ACP sugere um caminho que vale avaliar independentemente do porte da operação:

  1. Mapear, com meses de antecedência, quais janelas de embarque caem dentro do período de estação seca e avaliar se vale travar vaga via leilão de lance fechado em vez de arriscar o sistema diário.
  2. Comparar o custo do pacote fixo (FixContainer, FixGas) contra a exposição histórica do leilão diário, hoje já batendo a casa dos US$ 5 milhões por passagem em casos extremos.
  3. Para quem não consegue prever volume com tanta antecedência, os pacotes flexíveis (FlexGas+, FlexSlot+) funcionam como hedge intermediário, trocando parte da certeza por menor compromisso de capital.
  4. Acompanhar o resultado do piloto Panamax: se ele se mostrar eficaz em reduzir fila nas eclusas menores, é provável que a ACP amplie o número de pacotes nas próximas fases do LoTSA.

O ponto central é que o canal deixou de ser só uma passagem: virou um mercado de capacidade com leilão próprio, e empresas que tratam essa reserva como parte do planejamento de rede, e não como imprevisto de última hora, tendem a escapar dos valores recordes que o sistema diário vem registrando ao longo de 2026.