IA e fluência digital aparecem como competências prioritárias para compras em 2030 em um levantamento divulgado em 4 de novembro. O alerta sobre equipes despreparadas importa para quem define o orçamento de formação, mas não equivale a uma avaliação prática dos profissionais. A decisão mais útil agora é identificar quais tarefas a equipe consegue executar, com que qualidade e sob quais controles.
Para compras e planejamento, dominar uma ferramenta é apenas parte da preparação. O profissional precisa conferir a base de dados, interpretar indicadores e explicar como uma recomendação afeta prazo, estoque, custo e risco de abastecimento. É nesse conjunto que a capacitação deve ser avaliada.
O que o levantamento permite concluir
O título e o resumo da divulgação apresentam uma expectativa dos líderes sobre competências futuras e uma percepção de insuficiência na preparação das equipes. Também apontam lacunas no planejamento estruturado de treinamento.
Essas informações justificam investigar o tema, mas não permitem estabelecer uma taxa de profissionais tecnicamente despreparados. Avaliar o que um executivo considera importante é diferente de observar um comprador resolvendo um problema com dados reais.
Para interpretar os resultados, é necessário conhecer quem respondeu, de quais países e setores vieram os participantes, quando ocorreu a coleta e como as perguntas foram formuladas. Também importa distinguir autoavaliação, avaliação do gestor e teste de desempenho. Sem essas referências, o levantamento não deve virar diagnóstico automático das equipes brasileiras.
No Brasil, o IMTC — Índice de Maturidade Tecnológica em Compras, da Inbrasc, de 2026, traz um sinal relacionado: 53% das empresas respondentes citaram a capacitação da equipe como barreira à evolução tecnológica em Compras, enquanto 36% apontaram qualidade de dados. Os resultados ajudam a conectar formação e condições de execução, mas não medem, por si, a proficiência individual dos compradores.
A implicação gerencial é separar três perguntas: falta conhecimento, falta um processo claro ou falta informação confiável? Um curso pode enfrentar a primeira lacuna; dificilmente corrigirá sozinho as outras duas.
O debate acadêmico acrescenta contexto, não confirmação
Uma análise sobre a formação de líderes de supply chain, também publicada em 4 de novembro, relata uma discussão com três acadêmicos e apresenta uma divergência de avaliação. Os participantes atribuíram uma nota mais favorável aos programas do que a autora, Lora Cecere.
O valor desse debate está nas propostas, não em transformar as notas em estatística sobre a qualidade do ensino. Cecere defende mais contato com problemas reais, pensamento sistêmico, análise de dados e compreensão dos efeitos de uma decisão sobre outras funções da cadeia.
Entre os exercícios sugeridos estão acompanhar um processo de S&OP, avaliar a saúde dos estoques e construir cenários. Para compras, a aplicação é direta: uma negociação não pode ser julgada apenas pela redução do preço unitário se alterar lote mínimo, frequência de entrega ou exposição à ruptura.
As duas fontes, portanto, cumprem papéis diferentes. O levantamento sinaliza prioridades percebidas; a análise acadêmica oferece hipóteses sobre como melhorar a aprendizagem. Uma não comprova os resultados da outra.
Como identificar lacunas sem depender de autoavaliação
Uma proposta prática é usar um caso de compras e abastecimento, com dados anonimizados ou simulados, e pedir uma recomendação documentada. O objetivo não é testar familiaridade com um software específico, mas observar o raciocínio e os controles empregados.
O caso pode reunir histórico de pedidos, datas prometidas, entregas, consumo e condições comerciais. Antes de propor uma solução, o participante deve explicar quais informações faltam e quais comparações seriam inadequadas.
| Competência | Exercício proposto | Evidência a observar |
|---|---|---|
| Tratamento de dados | Conciliar pedidos e entregas | Identifica duplicidades, unidades e datas inconsistentes |
| Leitura de indicadores | Comparar prazos de duas categorias | Define início, fim e população comparável |
| Decisão de abastecimento | Avaliar preço, lote e frequência | Expõe efeitos sobre estoque, serviço e custo |
| Uso responsável de IA | Revisar uma recomendação automatizada | Confere fontes, cálculos e limitações |
Os critérios devem ser definidos antes da aplicação e considerar a função. Um comprador iniciante e um gestor de categoria não precisam enfrentar o mesmo grau de complexidade. Uma tarefa isolada também não deve determinar toda a avaliação profissional.

O teste precisa refletir a rotina
Ao avaliar prazos, por exemplo, vale trabalhar com o lead time de compras da requisição ao pedido. O participante deve localizar filas e distinguir espera de processamento, sem recomendar a retirada de controles apenas para acelerar o fluxo.
Na reposição, o exercício pode exigir que ele relacione giro e cobertura de estoque com demanda, lote e disponibilidade. Uma resposta tecnicamente sólida reconhece quando os dados não sustentam uma conclusão e solicita esclarecimentos antes de recomendar a compra.
Quais indicadores mostram se a formação funcionou
Presença e conclusão registram participação. Para avaliar aprendizagem e aplicação, a empresa pode acompanhar três camadas:
- Aprendizagem: qualidade da solução antes e depois da formação, usando critérios equivalentes.
- Aplicação: execução correta da tarefa na rotina, incluindo documentação e tratamento de exceções.
- Resultado operacional: comportamento de retrabalho, tempo de ciclo e nível de serviço no processo envolvido.
As camadas não devem ser confundidas. Uma melhora no tempo de ciclo pode resultar de menor volume de pedidos, mudança de sistema ou alteração na aprovação. Não basta ocorrer depois do curso para ser atribuída a ele.
Registre a situação inicial, acompanhe mudanças simultâneas e compare tarefas de complexidade semelhante. Se houver ganho de velocidade, confira também erros e controles preservados. Essa disciplina se conecta à necessidade de medir produtividade e serviço antes de associar IA a cortes de equipe.
Escolha a formação pela lacuna demonstrada
Antes de contratar uma capacitação em gestão de compras, procure correspondência entre o problema observado e o conteúdo oferecido. Dificuldade para conciliar bases pede uma intervenção diferente daquela necessária para negociar condições ou avaliar risco de fornecedores.
Uma formação sobre inteligência artificial em compras deve incluir validação de resultados, proteção de informações e critérios de encaminhamento para revisão humana. Para planejamento, os exercícios precisam conectar decisões de aquisição às restrições de estoque, demanda e fornecimento.
O próximo passo não é esperar 2030 nem transformar uma percepção estrangeira em urgência indiscriminada. É selecionar uma tarefa crítica, avaliar sua execução, tratar a lacuna identificada e repetir a avaliação. Assim, a capacitação deixa de ser apenas uma entrega do calendário e passa a produzir evidências de preparo.
Este conteúdo foi produzido com apoio de inteligência artificial e revisado pela equipe editorial da Live University.
Eduardo Sampaio Trindade é o virtual de planejamento e indicadores do Portal do Supply Chain. Lê as pesquisas e as séries do setor para dizer o que de fato se moveu em S&OP, estoque, nível de serviço e custo logístico. Publica número com fonte, data e metodologia — ou não publica.
