Etanol em navios avança em Santos, mas não define frete menor

Santos passa a abastecer navios da CMA CGM com etanol. Veja a cadeia logística, o que está previsto até dezembro e por que isso não garante frete menor.

Renata Bicalho Furtadopublicado em 27 out. 2026 · 7 min de leitura
Etanol em navios avança em Santos, mas não define frete menor

O abastecimento de navios com etanol em Santos entrou em uma etapa de fornecimento regular em 19 de outubro, com uma operação no porta-contêineres CMA CGM Iron. Há novos abastecimentos previstos até dezembro de 2026, mas não foram divulgados volumes, frequência ou preços. Para o embarcador brasileiro, a novidade é operacional: não há anúncio de redução de frete nem de ampliação dos serviços de transporte associado à iniciativa.

A operação conecta usinas brasileiras, distribuição de combustível, armazenagem portuária e abastecimento no Tecon Santos. O avanço está em dar continuidade à experiência de julho, agora com perspectiva de novos fornecimentos à armadora francesa, conforme os detalhes da operação iniciada em outubro.

O que está confirmado até dezembro

O marco desta fase é o abastecimento do CMA CGM Iron em 19 de outubro. Antes disso, o mesmo navio havia recebido etanol em Santos em 12 de julho, por transferência de uma barcaça especializada.

A previsão divulgada contempla novos abastecimentos de navios da CMA CGM até o fim de 2026. Isso não equivale, porém, a um calendário público de atendimento semanal ou mensal. Também não permite calcular a demanda de combustível para os próximos dois meses.

Ponto da operação Informação disponível Limite da informação
Atendimento Navios da CMA CGM Sem lista dos próximos navios
Prazo Novos abastecimentos até dezembro de 2026 Sem datas individualizadas
Escala Continuidade após a experiência de julho Sem volumes ou frequência
Condições comerciais Fornecimento regular anunciado Sem preços divulgados

A expressão “regular”, portanto, descreve a passagem para fornecimentos recorrentes. Não comprova atendimento irrestrito a outros armadores, disponibilidade diária ou continuidade contratada depois de dezembro.

Como o etanol chega ao navio

A cadeia começa nas usinas associadas à Copersucar. A Evolua Etanol responde pelo fornecimento e pelo transporte do produto até Santos; a AGEO Terminais realiza a armazenagem; e o abastecimento acontece no Tecon Santos, operado pela Santos Brasil.

A iniciativa também reúne Bunker One e Autoridade Portuária de Santos. A Bunker One desenvolveu um protocolo específico após estudos e treinamento das equipes, considerando as características do combustível.

Essa divisão de responsabilidades ajuda a entender a infraestrutura envolvida: não basta ter etanol disponível nas usinas. O fornecimento depende de transporte até o porto, armazenagem e uma etapa de transferência compatível com a embarcação atendida.

Infográfico: Etanol em navios avança em Santos, mas não define frete menor
Infográfico: Etanol em navios avança em Santos, mas não define frete menor

O material divulgado identifica os participantes e o local de abastecimento, mas não informa capacidade de armazenagem reservada, vazão de transferência, tempo de atendimento ou necessidade de investimentos adicionais. Tampouco detalha se o abastecimento de outubro repetiu o uso de barcaça registrado em julho.

Para fornecedores interessados nesse mercado, essas são questões de dimensionamento operacional. Sem elas, não é possível estimar quantos navios a estrutura pode atender nem qual estoque seria necessário para sustentar uma frequência maior.

Quais embarcações podem receber o combustível

O CMA CGM Iron tem capacidade de 13 mil TEUs — unidade equivalente a um contêiner de 20 pés. Seu motor é o Everllence-B&W G95ME-C10.5-LGIM, apresentado pela armadora como o primeiro tricombustível do mundo certificado para operar com bioetanol.

Segundo as informações atribuídas à CMA CGM no material de origem, o navio é o primeiro de uma série de 12 porta-contêineres equipados com essa tecnologia. Isso não significa que as 12 embarcações serão abastecidas em Santos até dezembro: não foi apresentada uma relação dos próximos atendimentos.

A distinção é importante para avaliar o alcance da novidade. A oferta de etanol no porto não torna qualquer embarcação apta a utilizá-lo. A expansão depende tanto da frota compatível quanto das condições logísticas e comerciais de fornecimento.

Há ainda um cuidado operacional explícito: o baixo ponto de fulgor do etanol exige atenção ao manuseio e ao controle de fontes de ignição. O protocolo e o treinamento relatados fazem parte da preparação para esse abastecimento; não são detalhes acessórios da operação.

O que muda para quem contrata frete

Até agora, não há efeito anunciado sobre preço do transporte, espaço disponível para cargas, frequência de viagens ou novas rotas. A capacidade de 13 mil TEUs do Iron descreve o porte do navio, não uma oferta adicional de espaço comercial decorrente do uso de etanol.

Na contratação, convém separar o combustível utilizado das condições efetivamente oferecidas ao embarcador. Como já tratamos ao explicar o que monitorar no frete marítimo internacional, espaço, equipamento e preço precisam ser verificados para o embarque concreto.

Uma proposta comercial relacionada à iniciativa deve responder:

  • Qual navio e qual viagem transportarão a carga?
  • Há alteração documentada no frete ou em alguma sobretaxa?
  • O prazo e o espaço estão confirmados na reserva?
  • Existe informação verificável sobre o combustível utilizado naquela viagem?

A novidade também não substitui o acompanhamento da programação marítima. Uma eventual viagem cancelada continua exigindo reprogramação do embarque e revisão do prazo de entrega, independentemente do combustível da embarcação.

Mercado potencial não é demanda contratada

Os parceiros estimam que substituir 10% do consumo mundial de combustíveis marítimos corresponderia a aproximadamente 50 bilhões de litros de etanol por ano, considerando a equivalência energética entre os produtos.

Esse número é um cenário potencial apresentado pelas empresas. Não representa encomendas, previsão de vendas em Santos ou volume contratado pela CMA CGM. Sua concretização dependeria da adesão dos armadores, da evolução da frota compatível e das condições de fornecimento.

A mesma cautela vale para a dimensão ambiental. O material não apresenta medição da redução de emissões da operação de outubro nem comparação de custos com combustíveis marítimos convencionais.

Para incorporar esse transporte a um indicador ambiental da cadeia, o embarcador deve solicitar metodologia, limites do cálculo e vínculo com o serviço contratado. O uso de um biocombustível, isoladamente, não fornece um percentual verificável de redução para a carga transportada.

O próximo avanço precisa aparecer nos dados

Até dezembro, os sinais mais relevantes serão a realização dos próximos abastecimentos e a divulgação de volumes, intervalos entre operações e embarcações atendidas. Esses dados permitirão avaliar a escala do fornecimento, além de sua continuidade.

Para o planejamento logístico, a orientação é manter frete, capacidade e prazo apoiados em propostas e reservas confirmadas. Santos passa a ter uma cadeia organizada para atender essa operação com etanol; transformar o avanço em economia ou benefício ambiental mensurável ainda exige informações que não foram apresentadas.

Este conteúdo foi produzido com apoio de inteligência artificial e revisado pela equipe editorial da Live University.

Renata Bicalho FurtadoAutor

Renata Bicalho Furtado é a especialista de Logística do Portal do Supply Chain. Acompanha o que se move no setor — aquisições, concessões, obras, novos CDs, greves e resultados — e publica o fato com número, data e fonte. Cada nota termina no efeito prático para quem toca a operação.

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