O Brasil está comprando mais máquinas e mais sofisticadas do que nunca, mas boa parte desse investimento corre o risco de ficar parado por falta de quem saiba operá-lo. É o retrato que aparece em reportagem publicada pelo Valor Econômico (06/10/2026) sobre o descompasso entre a modernização do parque industrial e a escassez de programadores CNC (Controle Numérico Computadorizado) e profissionais de CAM (manufatura assistida por computador).
Para quem decide capex em equipamentos, contratação e desenho de cadeia produtiva, três pontos resumem por que isso importa:
Torno e centro de usinagem modernos só entregam toda a produtividade prometida se alguém traduzir o projeto de engenharia em uma sequência de estratégias, ferramentas, velocidades e trajetórias que a máquina consiga executar sem colidir ou desperdiçar material. Enquanto esse código não está pronto, o equipamento fica parado, e uma máquina de centenas de milhares ou milhões de reais parada é capacidade produtiva que não vira peça, prazo nem faturamento.
O caso da Prime Indústria Aeroespacial, citado na reportagem, dá a dimensão do problema. Durante a estruturação da ferramentaria da empresa, parte da programação era feita linha por linha, direto no painel do CNC, com a máquina parada enquanto o código era escrito. Segundo estudo de caso validado pela própria companhia, a adoção de programação CAM offline (fora da máquina, com o software Mastercam) reduziu atividades de horas para minutos, cortou em até 40% o tempo de corte das peças e eliminou a necessidade de peças de teste, substituídas por simulação.
O Mastercam foi um divisor de águas para consolidar nossa produtividade logo na largada. (autor) Vanderley Faxina, engenharia e produção da Prime Aeroespacial
Para quem avalia fornecedor de equipamento, o caso é um lembrete prático: a ficha técnica da máquina não conta a história toda. O ecossistema de software, treinamento e suporte ao redor dela decide se o capex vira produtividade ou vira ociosidade disfarçada de ativo imobilizado.
A escassez não é percepção isolada de uma empresa. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) com 1.002 empresários, citada na reportagem, mostra que 62% apontam a dificuldade de contratar mão de obra qualificada como um dos principais componentes do Custo Brasil, ao lado de carga tributária e burocracia.
Enquanto isso, o parque de máquinas segue crescendo. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) mostram que o setor fechou 2025 com receita líquida de cerca de R$ 299 bilhões, alta de 7,3% sobre 2024, e que as importações de máquinas e equipamentos somaram US$ 32,2 bilhões, recorde histórico.
O cruzamento desses dois números é o paradoxo que interessa a quem lidera supply chain: o país está comprando a capacidade instalada, mas não na mesma velocidade está formando quem a opera. Isso transforma um recurso que parecia só de RH, mão de obra técnica, em variável de risco de fornecimento tão real quanto falta de insumo ou gargalo logístico.
O cenário macro reforça a urgência. O Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE, apontou que a produtividade agregada do trabalho cresceu apenas 0,4% em 2025, puxada principalmente pela agropecuária, enquanto indústria e serviços tiveram desempenho mais fraco.
A reportagem traça um paralelo com o próprio agronegócio que ajuda a entender a lógica: estudo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), também publicado pelo Valor, mostrou que entre 2012 e 2025 a área agrícola brasileira cresceu 43,2%, enquanto o número de trabalhadores por 100 hectares caiu 38,5%. A leitura do levantamento é que a dificuldade de encontrar trabalhador não é só consequência da mecanização: em muitos casos, foi o que acelerou o investimento nela.
| Setor | O que disparou o investimento em automação | Efeito observado |
|---|---|---|
| Agronegócio (2012-2025, dado CNA) | Escassez de trabalhador rural | Área cresceu 43,2%, mão de obra por hectare caiu 38,5% |
| Indústria (2025, dado CNI/ABIMAQ) | Escassez de programador CNC qualificado | Importação recorde de máquinas (US$ 32,2 bi), mas gargalo de operação |
A indústria parece repetir o padrão do campo: a falta de gente qualificada não é só um problema de RH, é também um motor de decisão de investimento em automação e em inteligência artificial aplicada ao chão de fábrica.
Sistemas de CAM com inteligência artificial já conseguem reconhecer características geométricas de uma peça e sugerir ou gerar parte das estratégias de usinagem que antes dependiam inteiramente do programador. Isso não elimina a necessidade de conhecimento técnico, mas muda sua escala: o profissional deixa de gastar tempo com tarefas repetitivas e passa a validar estratégias, resolver exceções e ampliar quantos trabalhos consegue programar.
O maior ganho não está necessariamente em substituir o conhecimento do programador, mas em multiplicar sua capacidade. Existe um conhecimento industrial acumulado durante anos dentro dessas pessoas. Quando a tecnologia assume parte do trabalho repetitivo, esse profissional pode usar sua experiência onde ela realmente gera valor. (autor) Camila Sarantopoulos, CEO da TECC Indústria Inteligente
O relatório State of AI in the Enterprise 2026, da Deloitte, mostra a velocidade dessa transição no Brasil: 58% dos executivos brasileiros pesquisados afirmam que suas organizações já usam algum nível de IA física, categoria que inclui manufatura, logística e operações. Mas a maturidade ainda é baixa: 47% classificam a adoção como mínima e apenas 1% como avançada. A expectativa da consultoria é que algum tipo de IA física esteja presente em 82% das organizações brasileiras pesquisadas nos próximos dois anos, um salto que depende de execução e não está garantido.
Para CSCOs, CPOs e diretores de operação, o recado prático desdobra-se em decisões concretas:
Sarantopoulos reconhece que a resistência inicial é natural. Segundo ela, o receio das indústrias em relação à confidencialidade dos projetos ao adotar IA é legítimo, mas tende a seguir a mesma curva de adoção vista com e-mail e computação em nuvem: a desconfiança inicial cede à medida que segurança, governança e regras de uso amadurecem.
O ponto em aberto é o ritmo dessa maturidade. A pesquisa CNI de 2026 mostra que 61% das indústrias brasileiras fizeram alguma atividade de inovação nos três anos anteriores, e que 69% delas miraram melhoria de processo produtivo, com aumento de produtividade citado por 38% como principal resultado. Isso mostra apetite, mas não resolve, sozinho, o problema estrutural: enquanto a formação técnica não acompanhar o ritmo de importação de máquinas, cada torno novo na linha carrega, junto com o ganho de capacidade, um risco de ociosidade que começa na falta de quem sabe programá-lo.