Antes de discutir a segurança do software que acompanha seus embarques, vale responder uma pergunta mais simples: quais dados seus ficam guardados fora da empresa? Neste mês de outubro, o grupo de extorsão chamado n0n citou 38 organizações marítimas e logísticas em poucos minutos. O alerta importa para quem depende de parceiros internacionais, mas não comprova que todas essas organizações tenham sofrido invasões.
Na minha leitura, a questão central não é contar nomes numa lista de ameaças. É identificar a origem dos arquivos. Segurança cibernética na logística começa por saber quem guarda a informação, quem consegue consultá-la e como a operação continua se esse acesso desaparecer.
O caso traz uma diferença importante entre contagem e evidência. Pesquisadores identificaram sinais de uma possível origem comum dos dados ligada à CyberLogitec. A hipótese é que um único arquivo possa reunir informações de 38 organizações, sem exigir 38 invasões separadas. Isso não prova uma invasão à fornecedora nem a cada empresa citada.
A ameaça de extorsão no transporte marítimo já colocou reservas, documentos e continuidade operacional em discussão. O passo seguinte é separar três coisas: a empresa ser mencionada, seus dados aparecerem em um arquivo e seus sistemas terem sido comprometidos. Uma situação não comprova automaticamente a outra.
Para o importador brasileiro, a checagem deve começar pelo fluxo do embarque. Se uma plataforma ficar indisponível, onde consultar a última reserva aceita? Quem conserva os documentos e consegue conferir uma alteração de instrução? São perguntas de contingência, não efeitos confirmados desse episódio.
Por isso, sempre que um fornecedor tecnológico aparecer em um alerta, eu começaria com três perguntas práticas:
O IMTS — Índice de Maturidade Tecnológica em Supply Chain, da Inbrasc, de 2026, ajuda a contextualizar essa cobrança: entre as empresas respondentes, 17% atingem nível avançado em plano para indisponibilidade de sistemas e 14% em monitoramento de parceiros logísticos. Os resultados reforçam a utilidade de verificar a contingência, não apenas a existência da ferramenta.
Parece detalhe técnico, mas a origem do dado muda a decisão operacional. Um arquivo antigo copiado não é o mesmo que uma conta ainda capaz de alterar instruções. O primeiro exige apurar a exposição; o segundo exige também conter o acesso. Contar empresas não substitui rastrear arquivos.
A boa notícia é que começar essa verificação não exige comprar outra plataforma. Exige listar os dados compartilhados, guardar os contatos de emergência e conferir uma amostra dos registros com o fornecedor. Para dependências críticas, o próximo passo é testar a recuperação. Como na cobrança de melhora de um fornecedor crítico, promessa de correção precisa virar evidência, responsável e prazo.
O melhor controle não é o que produz mais alertas. É o que permite decidir com evidência e retomar a operação.
Se o sistema do seu parceiro sair do ar hoje, quem consegue localizar a última instrução válida do próximo embarque?
Colunista
Bruno dos Santos
DBA na Live University