O 23º Fórum de Compras & Sourcing, promovido pelo Inbrasc, da Live University, reuniu 8 mil profissionais, 200 palestrantes e 100 estandes nos dias 6 e 7 de outubro, no Transamérica Expo Center, em São Paulo, segundo números da organização publicados pelo Jornal Empresas & Negócios. A programação foi dividida em três arenas (Procurement 360, Procurement Excellence, Procurement Ecosystem) e cinco palcos (Strategy, Planning, Innovation, Tech e Solutions).
O recorte que atravessou boa parte das sessões não foi sobre cortar custo mais rápido. Foi sobre até onde vai, hoje, a responsabilidade de quem compra: proteção de operação, inovação e resultado financeiro entraram na mesma mesa que negociação e redução de preço.
Para quem lidera supply chain e procurement, três sinais do evento pesam mais do que a lista de palestrantes:
Na sessão sobre liderança em transformação constante, a cobertura do evento publicada pelo portal Live Supply Chain destacou que a discussão sobre inteligência artificial não começou pela ferramenta. Começou por organizar dado, estabelecer responsáveis pelas informações e desenvolver a capacidade dos compradores de transformar análise em decisão. A adoção de IA foi tratada como processo de experimentação e aprendizado contínuo dentro das equipes, não como implantação de sistema fechado.
Essa ordem importa para quem decide investimento. Um CPO que compra plataforma de IA para sourcing antes de resolver quem é dono de cada base de dado, como ela é atualizada e com que qualidade, corre o risco de automatizar erro em vez de automatizar decisão. O fórum não detalhou qual empresa já roda piloto estruturado nem trouxe número de ganho de produtividade: o que ficou claro, pelas sessões descritas, é que a sequência (dado organizado, responsável definido, comprador treinado para interpretar) vem antes da escolha de fornecedor de tecnologia.
Rodrigo Inarra, da Ambev, usou a gestão de refeitórios corporativos como exemplo prático no evento. O caso mostrou como uma única contratação de serviço envolve segurança, conforto e diferentes componentes de custo que não aparecem na primeira cotação, reforçando a necessidade de avaliar o valor entregue ao longo de toda a operação, e não só no fechamento do contrato, segundo a cobertura do Jornal Empresas & Negócios.
Na Arena Procurement Ecosystem, o painel sobre formação de compradores de alta performance, com Júlio Tolentino (BH Airport), Luiz Vieira e Bianca Gama Hadid (Vibra Energia), tratou da diferença entre fornecedor que só atende demanda e fornecedor que contribui ativamente para resultado. A sessão dedicada a parcerias estratégicas foi na mesma direção: discutiu definição de escopo, participação das áreas usuárias e avaliação de custo total de aquisição, destacando que manutenção, falha e retrabalho corroem o resultado de uma compra mesmo quando a proposta inicial parece mais vantajosa no papel, conforme registrou o Live Supply Chain.
Em resumo: as três sessões, lidas juntas, apontam para o mesmo ajuste de modelo de avaliação. Hoje, muitas áreas de compras ainda decidem fornecedor pelo menor preço fechado na cotação. O movimento discutido no fórum pede um modelo que pondere maturidade da parceria, histórico de falha e custo de manutenção ao longo do contrato, o que muda o critério de homologação e a métrica que o comprador leva para o board.
Em apresentação da Nimbi no fórum, Kamylla Vaz e Augusto Toledo usaram simulações para mostrar como tributação e créditos alteram a comparação econômica entre propostas de fornecedores. O conteúdo, segundo o Live Supply Chain, apontou a necessidade de aproximar Compras da área Fiscal e incorporar essa informação à análise de fornecedor e contrato.
Isso tem peso direto na decisão de quem lidera sourcing. Uma proposta que hoje parece mais cara pode se tornar mais vantajosa depois de calculado o crédito tributário disponível, e o inverso também vale. Sem integração entre Compras e Fiscal, o comparativo de propostas roda com uma variável fora da conta, e a decisão de homologação de fornecedor fica exposta a esse erro justamente no momento em que a reforma tributária está em transição no país.
O material do evento é diretional, não quantificado: não há, nas sessões relatadas, número de ROI de IA em sourcing, cronograma de como a transição tributária afeta ciclos de negociação já fechados, nem lista de empresas com piloto estruturado de governança de dado em Compras. Quem lidera supply chain e quer número para apoiar decisão de investimento precisa buscar esse dado em benchmarks setoriais, como os que o próprio Inbrasc costuma publicar fora do fórum, e não apenas na cobertura do evento.
O painel de abertura, com Janaina Peres (Mars), Sheila Tolfo (BMW Group Brazil) e Erwin Souza (Fronteiras Mineração), mediado por Lucio Mancini, diretor de Eventos da Live University, tratou IA, geopolítica, sustentabilidade e pessoas como parte do mesmo pacote de transformação da área, segundo o Jornal Empresas & Negócios. A convergência desses temas num único painel de abertura é, em si, um indicador do tamanho do mandato que recaiu sobre Procurement: a área que antes respondia por preço agora responde, na mesma reunião, por risco geopolítico, dado, tributo e pessoas.