A importação de diesel no Brasil caiu 26,7% em setembro de 2026 na comparação com setembro de 2025, segundo dados divulgados nesta terça-feira (6/10) pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex). O volume recuou de 1,77 milhão de metros cúbicos para 1,29 milhão de metros cúbicos no período. Para quem compra frete rodoviário ou administra estoque de combustível de frota própria, o dado confirma um mercado mais apertado e mais dependente de um único fornecedor externo: os Estados Unidos.
Em barris, foram 8,17 milhões de barris de diesel importados em setembro, queda de 26,5% na mesma base de comparação. O mercado brasileiro depende de cerca de 30% de diesel importado para atender a demanda interna; o restante vem da produção da Petrobras e de refinarias privadas. Uma retração desse tamanho no volume comprado lá fora pressiona esse fatiamento e tende a repassar volatilidade para o preço na bomba.
A queda tem explicação concentrada em um fornecedor. A Rússia, que no passado vendia diesel mais barato ao Brasil, restringiu as exportações do produto para priorizar o mercado interno. Em setembro, o Brasil importou apenas 75,2 mil metros cúbicos de diesel russo, queda de 84,3% na comparação anual. Em compensação, a compra do diesel americano subiu 18,12% no mesmo período, para 957,3 mil metros cúbicos.
| Fornecedor | Volume set/2026 (mil m³) | Variação anual | Participação no total importado |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 957,3 | +18,12% | 73,56% |
| Rússia | 75,2 | -84,3% | minoritária, ante 45,78% dos EUA em 2025 |
A participação dos Estados Unidos no total importado saltou de 45,78% em setembro de 2025 para 73,56% em setembro de 2026. Para Bruno Cordeiro, analista da StoneX, o retrato de setembro repete o de agosto, mas com um agravante:
A diferença é que houve uma queda anual no total importado, o que se explica pela indisponibilidade de produto. O mercado de diesel está mais apertado pelas restrições da Rússia. (autor) Bruno Cordeiro, analista da StoneX
Na prática, para quem contrata frete ou administra frota própria, o diesel costuma ser o item de maior peso no custo variável do transporte rodoviário no Brasil. Um aperto na oferta importada tende a ficar mais visível no preço na bomba do que uma mudança na produção interna da Petrobras, que segue outra lógica de formação de preço. Trocar um fornecedor historicamente mais barato (Rússia) por outro mais sujeito a decisões políticas e cambiais (Estados Unidos) embute mais risco na composição do preço do diesel que chega às distribuidoras brasileiras.
Para quem fecha contrato de frete de longo prazo, esse cenário reforça a lógica de cláusulas de reajuste atreladas a índice de combustível, em vez de valor fixo negociado uma vez por ano. É também um argumento para revisar, com o setor de compras, se o contrato atual tem gatilho para revisão em caso de choque de oferta como o que a Secex acabou de registrar.
Segundo Cordeiro, o mercado está de olho nos números de outubro, quando o consumo sazonal sobe por causa do período agrícola. Há ainda paradas programadas em refinarias da Petrobras importantes para o abastecimento nacional. Nesse cenário, a leitura do analista é direta:
Sob o contexto global de importação fragilizada e refinarias em manutenção, a tendência é que o mercado utilize mais os estoques nos próximos meses. (autor) Bruno Cordeiro, analista da StoneX
Para o fim do ano, a expectativa é de recuo na demanda sazonal interna, mas o cenário externo pode compensar essa folga. Com o inverno no hemisfério norte, países como os Estados Unidos aumentam o próprio consumo de diesel, o que reduz a disponibilidade para exportação. Soma-se a isso a possibilidade, já aventada pelo presidente americano Donald Trump, de restringir exportações de diesel para conter os preços dos combustíveis internamente nos Estados Unidos. A Casa Branca chegou a descartar essa medida depois da declaração do presidente, mas o risco segue no radar do mercado.
O Brasil depende do diesel americano, assim como países da Europa e da Ásia. Caso chegue ao fim do ano ainda com restrição de diesel russo, seria um ponto de atenção, já que o consumo americano aumenta durante o inverno. Nesse caso, pode haver alguma medida americana para priorizar o mercado interno. (autor) Bruno Cordeiro, analista da StoneX
Para quem planeja compras de diesel e frete até o início de 2027, três pontos seguem sem resposta fechada: se a Rússia volta a liberar exportação para o Brasil, se os Estados Unidos de fato restringem vendas externas de diesel durante o inverno e se as paradas de manutenção da Petrobras em outubro vão exigir mais uso de estoque do que o previsto. Nenhum dos três tem data certa de desfecho, e os três mexem diretamente no custo final do diesel comprado no Brasil.