O Mercado Livre alcançou 3,8 milhões de m² ocupados em galpões logísticos no Brasil, alta de 52% sobre 2025, e mantém outros 800 mil m² pré-locados. Os números, atribuídos a levantamento da JLL, mostram a dimensão imobiliária da rede, mas não comprovam aumento equivalente na capacidade de processar pedidos nem redução dos prazos de entrega.
Para quem planeja estoques, abastece a plataforma ou contrata distribuição, a distinção importa: espaço ocupado, imóvel contratado e operação disponível são etapas diferentes. A localização e a função de cada instalação precisam entrar na análise antes de mudar o desenho de atendimento.
O que os 3,8 milhões de m² medem
A área ocupada passou de 2,5 milhões de m² em 2025 para 3,8 milhões em 2026. A diferença é de 1,3 milhão de m², calculada sobre os valores divulgados. Trata-se de expansão da ocupação imobiliária, não de uma medida de pedidos adicionais por dia.
A capacidade efetiva depende de fatores como layout, posições de armazenagem, equipamentos, equipes, turnos e disponibilidade de transporte. Uma instalação também pode ter partes em implantação ou operar abaixo da capacidade projetada; o número agregado não esclarece essas condições.
Os 800 mil m² pré-locados devem permanecer separados. Somados à ocupação informada, representam 4,6 milhões de m² entre espaços ocupados e previamente contratados, não 4,6 milhões de m² em operação. Sem cronogramas e condições de entrega, essa soma não serve como capacidade disponível para o planejamento de pedidos.

Onde estão os negócios e qual é a situação dos imóveis
O levantamento apresenta contratos em diferentes mercados, mas distingue ocupações de pré-locações. Essa separação permite identificar compromissos imobiliários sem tratar todos como inaugurações.
| Empreendimento | Localização informada | Área | Situação informada |
|---|---|---|---|
| XPEX Contagem | Contagem, MG | 47 mil m² | Pré-locação |
| Arteca Log III | Minas Gerais | 32 mil m² | Ocupação |
| Vegas Log I | Minas Gerais | 23 mil m² | Ocupação |
| Doca Condomínio Logístico | Rio Grande do Norte | 29 mil m² | Pré-locação |
| NM KSM LOG Guarulhos I | Guarulhos, SP | 78 mil m² | Pré-locação |
| CL Imigrantes 5 | Mercado paulista | 62 mil m² | Ocupação |
| BTG AAA Cajamar | Cajamar, SP | 55 mil m² | Pré-locação |
A relação não é um inventário completo da rede. Também não detalha, para cada endereço, a função logística, a data de início das atividades ou a capacidade de processamento. Assim, não permite concluir quais municípios ganharam atendimento ou quais rotas foram alteradas.
Ocupação é uma informação mais avançada que pré-locação no ciclo imobiliário, mas ainda não informa o desempenho da unidade. Para isso, é necessário conhecer os fluxos atendidos e os indicadores operacionais.
Campinas é projeto; os novos CDs são previsão
Entre os anúncios está um complexo de 464 mil m² em Campinas (SP), em frente ao Aeroporto Internacional de Viracopos. O empreendimento será desenvolvido pela BTS Properties no modelo built-to-suit, ou BTS: imóvel construído sob medida para o ocupante.
O projeto deve ser tratado como construção futura, e não como capacidade já entregue. As informações disponíveis tampouco esclarecem se seus 464 mil m² estão integralmente incluídos nos 800 mil m² pré-locados. Somar as duas áreas como compromissos distintos poderia gerar dupla contagem.
A empresa prevê ainda abrir 14 centros de distribuição no modelo fulfillment, passando de 28 para 42 unidades. Nesse modelo, a estrutura reúne atividades de armazenagem e atendimento de pedidos. A previsão de abertura, porém, não confirma que todas as unidades já estejam funcionando.
O plano de investimentos de R$ 57 bilhões no Brasil em 2026, também mencionado na notícia, tem abrangência nacional. Não há detalhamento que permita atribuir todo esse montante a galpões, obras ou equipamentos logísticos.
O efeito sobre cobertura depende da função de cada unidade
Uma rede pode ganhar área sem ampliar proporcionalmente sua cobertura geográfica. Um novo imóvel pode reforçar uma região já atendida, substituir outro endereço ou assumir apenas parte de um fluxo. Essas são possibilidades operacionais, não conclusões comprovadas sobre os contratos apresentados.
Para o embarcador, três informações tornam a expansão acionável:
- Origem e destino: quais regiões passam a ser abastecidas pela instalação.
- Função: se haverá estoque, separação de pedidos, transferência, triagem ou distribuição local.
- Disponibilidade: quando o serviço poderá ser utilizado e sob quais condições.
Sem essas respostas, a proximidade de um galpão não assegura entrega mais rápida. O pedido pode depender de estoque em outro local, transferência entre unidades e frequência de saída. A comparação entre embarque direto e operação com transbordo ajuda a avaliar esse percurso pelo prazo completo, não apenas pela distância.
Mais área não comprova serviço melhor
O Supply Chain Performance Index (SCPI), da Inbrasc, de 2026, mostra a importância de medir o resultado operacional: entre as empresas respondentes, Custo Logístico/Receita foi citado por 59% entre os KPIs mais importantes, enquanto OTIF e Lead Time Pedido-Entrega apareceram com 47% cada. O estudo contextualiza quais resultados importam na gestão, sem medir a operação do Mercado Livre.
Aplicada à expansão, essa lógica pede comparar entregas completas e no prazo, tempo entre pedido e recebimento e custo por operação. A comparação precisa preservar condições semelhantes de destino, produto e serviço; caso contrário, mudanças no perfil dos pedidos podem distorcer o resultado.
Para quem envia mercadorias aos CDs, também vale confirmar agendamento, recebimento, restrições de carga e tratamento de divergências. Ganhar espaço não elimina gargalos nessas etapas.
O mercado de galpões exige análise local
O levantamento da JLL informa vacância nacional de 4,8% no terceiro trimestre de 2026, a menor da série, e preço pedido de R$ 35,20 por m². São indicadores do mercado pesquisado: não demonstram que o Mercado Livre, isoladamente, causou a alta dos aluguéis nem definem o valor de um contrato específico.
Na negociação, localização, especificação do imóvel, prazo e adaptações precisam ser avaliados junto ao aluguel. Como discutido na análise sobre custo de ocupação de galpões, o imóvel aparentemente mais barato pode exigir despesas adicionais para atender à operação.
O próximo passo é acompanhar a conversão das pré-locações em unidades disponíveis, com datas, funções e cobertura confirmadas. Os 3,8 milhões de m² dimensionam a presença imobiliária do Mercado Livre; a mudança concreta para o embarcador dependerá do serviço que essa estrutura efetivamente entregar.
Este conteúdo foi produzido com apoio de inteligência artificial e revisado pela equipe editorial da Live University.
Renata Bicalho Furtado é a especialista de Logística do Portal do Supply Chain. Acompanha o que se move no setor — aquisições, concessões, obras, novos CDs, greves e resultados — e publica o fato com número, data e fonte. Cada nota termina no efeito prático para quem toca a operação.
