A Pesquisa Ethos de Diversidade, Equidade e Inclusão 2025/2026, do Instituto Ethos, ouviu 206 organizações, das quais 77% são de grande porte. O retrato que sai dela interessa direto a quem comanda compras e cadeia de suprimentos: a inclusão de pessoas com deficiência deixou de ser exceção nas políticas corporativas, mas ainda não chegou à liderança, à equidade salarial nem à acessibilidade do dia a dia.
Para a liderança de supply chain, três números resumem o tamanho do problema antes de entrar no detalhe:
O Instituto Ethos aplicou o levantamento como parte da Pesquisa Ethos de Diversidade, um dos principais instrumentos de avaliação de práticas corporativas de diversidade no país, com apoio do CEERT, da Coalizão Empresarial para Equidade Racial e de Gênero, do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, do Movimento Mulher 360 e da Rede Empresarial de Inclusão Social (REIS). A tabela abaixo organiza os indicadores que mais afetam quem decide processo, fornecedor e operação:
| Indicador | % das empresas |
|---|---|
| Ofertam vagas sem distinção de deficiência | mais de 90% |
| Fomentam contratação de deficiência severa | 42,72% |
| Têm metas de equidade salarial entre PcD e não PcD | 34,47% |
| Têm metas de recrutamento PcD para cargos gerenciais | 12,62% |
| Têm metas de recrutamento PcD para cargos executivos | 10,68% |
| Avaliam trajeto (mobilidade, transporte, segurança) | 38,35% |
A diretora-adjunta do Instituto Ethos, Ana Lúcia Melo, resume o problema de fundo:
Os resultados mostram que a inclusão de pessoas com deficiência já é reconhecida por muitas empresas como uma dimensão importante da gestão da diversidade, mas o desafio está em garantir que esse compromisso se traduza em condições concretas de desenvolvimento e permanência. É preciso olhar para acessibilidade, remuneração, formação, mobilidade na carreira e presença em posições de liderança. (autor) Ana Lúcia Melo, diretora-adjunta do Instituto Ethos
O dado de 91,75% das empresas que tratam a pauta como agenda multidisciplinar (envolvendo jurídico, RH, saúde e segurança, comunicação, TI e medicina do trabalho) é o que mais chama atenção para quem está fora do RH: compras, logística e operações raramente aparecem nessa lista, ainda que sejam áreas que decidem fornecedor, modal de transporte e layout de centro de distribuição.
A pesquisa não fala diretamente de supply chain, mas três das suas conclusões batem de frente com decisões que o profissional de compras e logística toma todo mês.
Quando uma empresa assume meta de contratação para deficiência severa (hoje em 42,72% das participantes, segundo a pesquisa) ou monitora a chamada cota legal, prevista na Lei 8.213/1991 para empresas com 100 ou mais empregados, essa meta tende a se espalhar para critérios de homologação de fornecedores terceirizados, sobretudo em operações de facilities, portaria e serviços gerais dentro de centros de distribuição. Área de compras que ainda trata acessibilidade como item de contrato genérico, sem cláusula específica de acompanhamento, corre o risco de contratar fornecedor que não sustenta a meta corporativa de inclusão da própria empresa contratante.
Com 91,75% das empresas tratando a inclusão como agenda multidisciplinar, times de compras passam a ser chamados para discussões que antes ficavam só com RH: adequação de posto de trabalho em almoxarifado, acessibilidade de sistemas de gestão de estoque e critérios de acessibilidade em editais de obra e reforma de CD. Isso exige do comprador uma competência que a maioria das áreas de supply chain ainda não tem mapeada formalmente: ler requisito de acessibilidade como especificação técnica, não como obrigação de RH.
O ponto mais direto para quem planeja logística é o dado de que só 38,35% das empresas avaliam o trajeto do empregado com deficiência, considerando transporte público, segurança e autonomia. Esse indicador toca a mesma malha de rotas, horários e parcerias com operadores de transporte que a área de supply chain já desenha para fretamento e turnos. O Boletim Última Milha do Portal do Supply Chain volta a esse recorte quando o tema for frota própria e parceria com transporte público em operações de turno fixo.
Entre as empresas participantes, a Yduqs Participações foi reconhecida em primeiro lugar no recorte "Pessoas com Deficiência" da pesquisa. A companhia mantém desde 2022 o Programa Incluir para Transformar e, desde 2023, um grupo de afinidade específico para pessoas com deficiência, um entre os quatro grupos de afinidade que reportam a um Comitê de Diversidade formado por quatro vice-presidentes.
A estrutura da Yduqs inclui equipe de acompanhamento, grupos focais, revisão de acessibilidade, adequações físicas, monitoramento da cota legal, ações de mobilidade e desenvolvimento de carreira para profissionais com deficiência. É o tipo de governança que, numa companhia industrial ou de varejo, normalmente passaria por comitê de supply chain antes de chegar à obra do centro de distribuição ou ao contrato de frota.
A presidente do Instituto Yduqs e vice-presidente do grupo educacional, Cláudia Romano, conecta a pauta a resultado de negócio:
A educação tem o poder de ampliar oportunidades, valorizar diferentes trajetórias e garantir que vozes plurais ocupem espaços de aprendizagem, liderança e decisão. Ao promover ambientes mais acessíveis, acolhedores e representativos, contribuímos para reduzir desigualdades e fortalecer uma cultura de respeito e pertencimento. (autor) Cláudia Romano, presidente do Instituto Yduqs
O Instituto Ethos vai divulgar em novembro o e-book completo da Pesquisa Ethos de Diversidade, Equidade e Inclusão 2025/2026, com mais recortes de prática empresarial. Até lá, o levantamento atual não detalha quantas empresas aplicam critério de acessibilidade na homologação de fornecedor nem quantas têm meta de inclusão específica para operação logística e centro de distribuição. É a lacuna que separa um indicador de RH de um indicador de cadeia de suprimentos, e que a liderança de supply chain tem interesse direto em ver preenchida.