A Amazon registrou aumento de aproximadamente 11% nas despesas de transporte no terceiro trimestre de 2026, pressionada por combustível e fretes entre instalações, enquanto o volume de unidades enviadas cresceu 12%. No mesmo período, entregou mais de 1,5 bilhão de itens no mesmo dia ou durante a noite. A combinação mostra por que uma conta de frete maior, isoladamente, não comprova perda de eficiência.
Nos resultados divulgados em 29 de outubro, a companhia atribuiu parte da compensação dessas pressões ao posicionamento dos estoques, à redução das distâncias percorridas e à consolidação de pacotes. Para o operador brasileiro, a aplicação prática é separar inflação de transporte, crescimento do volume e produtividade antes de revisar orçamento ou negociar capacidade para o pico de vendas.
O que pressionou os custos logísticos da Amazon
A pressão veio de dois componentes: combustível e tarifas de transporte entre instalações, atividade conhecida como linehaul. Esse trecho conecta etapas da rede e não deve ser confundido com a última milha, que termina na entrega ao destinatário.
A empresa informou que, excluído o efeito da inflação desses dois componentes, as despesas de transporte teriam crescido 8%, abaixo da expansão de 12% das unidades enviadas. Trata-se de uma leitura ajustada apresentada pela companhia, não do aumento efetivamente registrado na conta.
O contraponto operacional está na forma de movimentar o estoque. Quando o produto está mais próximo da demanda, a distância necessária para atender o pedido pode diminuir. A consolidação também permite transportar mais itens juntos. São mecanismos capazes de compensar parte da alta das tarifas, embora o efeito dependa da ocupação, das rotas e do perfil dos pedidos.
Isso não significa que toda despesa logística tenha acompanhado o mesmo percentual. Transporte, armazenagem, processamento de pedidos e investimentos em automação são componentes distintos. O aumento de aproximadamente 11% não deve ser apresentado como variação de todo o custo logístico da Amazon.
A despesa subiu, mas o custo por item pode cair
Despesa total é o valor gasto no período; custo por unidade é esse valor dividido por uma quantidade operacional compatível. Se o gasto cresce menos que o volume correspondente, o custo médio pode diminuir. A comparação exige que numerador e denominador cubram as mesmas operações.
Na Amazon, os aumentos divulgados de despesas e unidades enviadas apontam nessa direção, mas não autorizam concluir quanto caiu o custo por entrega. Unidade vendida, item enviado, pacote e parada de entrega não são equivalentes. Um pacote pode reunir vários itens; uma parada pode atender mais de um pacote.
| Medida | O que ajuda a responder | Cuidado na leitura |
|---|---|---|
| Despesa total de transporte | Quanto a operação gastou | Pode subir com o volume |
| Custo por item enviado | Quanto custa movimentar cada item | Exige perímetro comparável |
| Custo por entrega concluída | Quanto custa concluir o atendimento | Deve considerar tentativas frustradas |
| Prazo e cumprimento da promessa | Qual serviço foi entregue | Média pode esconder atrasos |
O presidente-executivo Andy Jassy afirmou que a empresa caminha para reduzir o custo de atendimento por unidade pelo quarto ano consecutivo. É uma indicação da administração para o ano, não uma redução anual já encerrada nem uma medida exclusiva do transporte.

Mais velocidade não prova, sozinha, maior eficiência
Os mais de 1,5 bilhão de itens entregues no mesmo dia ou durante a noite mostram a escala do serviço rápido no trimestre encerrado em setembro. Não representam o total de pacotes da companhia e não devem ser usados como denominador da despesa global de transporte.
A Amazon também informou operar mais de 1 milhão de robôs em sua rede de atendimento. Automação, estoque mais próximo do cliente e consolidação aparecem como frentes complementares. Os dados disponíveis, porém, não permitem atribuir uma parcela específica da economia a cada iniciativa.
Para uma operação brasileira, copiar a velocidade sem reproduzir as condições de demanda e infraestrutura pode elevar o custo. Antes de encurtar a promessa, é preciso avaliar densidade de pedidos, disponibilidade do estoque, horários de corte e capacidade de expedição.
A localização entra nessa decisão. Como discutimos na análise do custo de ocupação de um galpão logístico, aluguel menor não basta para definir a melhor instalação: distâncias e despesas adicionais podem mudar a conta.
O quarto trimestre exige capacidade sem aposta cega
A perspectiva cautelosa para o trimestre de festas acrescenta uma tensão ao resultado: preparar a rede para vender mais sem assumir que toda capacidade contratada será utilizada. Os resultados do terceiro trimestre ficaram abaixo das expectativas de analistas, apesar da melhora de rentabilidade operacional relatada pela companhia.
A Amazon projetou vendas de US$ 240 bilhões a US$ 247 bilhões no quarto trimestre. A administração também indicou que a pressão de combustível e transporte entre instalações deve ser um pouco maior que no terceiro. São projeções, não resultados realizados.
A empresa informou ainda que a sobretaxa de combustível aplicada a vendedores do Fulfillment by Amazon não compensa integralmente os aumentos. Isso tampouco comprova reajuste equivalente de tarifas no Brasil. Despesa da plataforma e preço cobrado do vendedor são variáveis diferentes.
Quais indicadores acompanhar no pico de vendas
O Supply Chain Performance Index (SCPI), da Inbrasc, de 2026, mostra que Custo Logístico/Receita foi considerado um dos indicadores mais importantes por 59% das empresas respondentes, enquanto OTIF e Lead Time Pedido-Entrega apareceram com 47% cada. A combinação ajuda a contextualizar o desafio: acompanhar custo sem perder de vista o cumprimento e o prazo das entregas.
Na prática, um painel para o pico pode reunir:
- Custo por item e por entrega: separar produtividade de mudança no tamanho dos pedidos.
- Ocupação e distância percorrida: identificar viagens pouco aproveitadas e atendimento distante do estoque.
- Entregas completas no prazo: preservar a promessa original, sem melhorar o indicador apenas por ampliar a janela.
- Reentregas e contratação emergencial: localizar despesas que aparecem quando o plano falha.
A leitura deve comparar períodos e perfis semelhantes, distinguindo regiões, modalidades e níveis de serviço. Custo Logístico/Receita também merece atenção: a relação pode melhorar por aumento de preço dos produtos, sem ganho operacional.
O que levar para o orçamento brasileiro
O indicador de transporte reproduzido nos resultados é identificado como mundial, não brasileiro. Seu perímetro contábil detalhado precisa ser confirmado no balanço antes de qualquer comparação direta com uma transportadora ou operação local.
A resposta não é aplicar 11% ao orçamento. É decompor a variação entre volume, tarifas, combustível, distância, consolidação e serviço, alinhando premissas com compras e finanças. Esse cuidado também orienta a revisão do orçamento logístico.
A principal lição do trimestre é operacional: gastar mais pode conviver com maior eficiência. Para demonstrá-la, porém, é preciso comparar unidades compatíveis e comprovar que a economia não veio acompanhada de entregas piores.
Este conteúdo foi produzido com apoio de inteligência artificial e revisado pela equipe editorial da Live University.
Renata Bicalho Furtado é a especialista de Logística do Portal do Supply Chain. Acompanha o que se move no setor — aquisições, concessões, obras, novos CDs, greves e resultados — e publica o fato com número, data e fonte. Cada nota termina no efeito prático para quem toca a operação.
