Um teste com gêmeo digital em uma carga de cítricos identificou laranjas a 10,8 °C, embora o sistema de refrigeração mantivesse temperaturas entre 4 °C e 6 °C. A diferença expõe um risco para quem contrata transporte refrigerado: o controle do baú não comprova, sozinho, a condição de todos os paletes. A tecnologia pode ajudar a localizar essas diferenças, mas o relato disponível não demonstra quanto desperdício seria evitado.
O que o teste revelou dentro da carga
Pesquisadores dos laboratórios suíços Empa desenvolveram um modelo baseado em física para simular a circulação de ar e a transferência de calor em um semirreboque refrigerado. A proposta é estimar temperaturas em diferentes pontos da carga, ampliando a visibilidade em relação ao monitoramento apoiado em um único sensor.
O relato do experimento com o modelo da Empa descreve uma viagem comercial de quatro dias, da Grécia à Suíça, com 31 paletes de laranjas e limões. Foram instalados 108 sensores para comparar as temperaturas medidas com as previsões do gêmeo digital.
Algumas laranjas no meio do semirreboque chegaram a 10,8 °C. Os pesquisadores apontaram o pré-resfriamento insuficiente de paletes como explicação provável. As simulações também indicaram transferência de calor de produtos mais quentes para paletes vizinhos e influência da embalagem e do posicionamento sobre a circulação de ar.
Isso não equivale a demonstrar que toda a carga sofreu dano. O relato não informa descarte, perda de qualidade ou redução de vida útil efetivamente medida nessa viagem.
Temperatura do baú e do produto respondem a perguntas diferentes
O controle de temperatura no transporte refrigerado precisa distinguir o ambiente monitorado da condição do alimento. Uma leitura do ar descreve aquele ponto e momento; não comprova que o centro de todos os paletes esteja na mesma condição.
Para o gestor, a pergunta prática é se o monitoramento representa os locais relevantes da carga. Antes de ampliar sensores ou contratar software, vale exigir um mapa que identifique onde cada medição ocorre e o que ela representa.
| Verificação | Evidência a solicitar | Decisão apoiada |
|---|---|---|
| Condição inicial | Temperatura do produto antes do embarque | Aceitar ou corrigir o carregamento |
| Distribuição térmica | Medições em diferentes posições e alturas | Identificar diferenças entre paletes |
| Histórico da viagem | Registros associados a horários e eventos | Investigar quando surgiu o desvio |
| Condição na entrega | Inspeção vinculada ao lote e ao palete | Relacionar exposição e qualidade |
Os 108 sensores pertencem ao desenho daquele teste, não a uma recomendação universal. A quantidade necessária para outra operação deve ser justificada pelo plano de medição, pela carga e pelas decisões pretendidas.

O que o gêmeo digital acrescenta — e o que falta validar
O modelo procura explicar e estimar a distribuição térmica, não apenas exibir leituras. Isso abre a possibilidade de avaliar arranjos de paletes e embalagens antes de alterar a operação. A distinção entre gêmeo digital e simulação logística também importa na contratação: quais dados atualizam o modelo, com que frequência e para qual decisão?
O relato informa que medições e previsões foram comparadas, mas não apresenta o erro dessa comparação. Tampouco detalha a posição de cada sensor, a repetição em outras viagens ou uma comparação operacional que demonstre perdas menores após usar o modelo.
Antes do investimento, a recomendação é solicitar:
- Condições dos testes: carga, embalagem, temperaturas iniciais, configuração do veículo e eventos da viagem.
- Validação: diferença entre previsão e medição, inclusive nos pontos mais quentes, e limites de aplicação.
- Comparação: resultados com o procedimento atual e com a intervenção proposta, em condições equivalentes.
- Resposta operacional: quem recebe o alerta, o que pode fazer e como registra a decisão.
Essas são exigências de avaliação, não resultados já demonstrados pela pesquisa.
Dados e responsabilidade precisam acompanhar o alerta
O IMTS — Índice de Maturidade Tecnológica em Supply Chain, da Inbrasc, de 2026, ouviu 456 profissionais de 328 empresas. Entre as empresas respondentes, 30% apontaram qualidade de dados como barreira à evolução tecnológica, enquanto 14% estavam em nível avançado no monitoramento de parceiros logísticos. Os resultados ajudam a contextualizar o desafio de transformar medições compartilhadas com transportadoras em decisões operacionais.
Na prática, o contratante deve definir quem registra a temperatura inicial, quem mantém os sensores, quem acessa os dados e quem investiga divergências. Sem essas responsabilidades, uma previsão pode chegar ao painel sem produzir ação.
A mesma distinção aparece na escolha entre torre de controle e dashboard: visualizar um desvio não é o mesmo que ter capacidade de resolvê-lo. O projeto precisa dizer quais intervenções são possíveis durante a viagem e quais ficam para o recebimento ou para o próximo carregamento.
Como testar redução de desperdício sem antecipar economia
Para avaliar o benefício, uma proposta é começar com uma linha de base: registrar perdas e ocorrências do processo atual antes da intervenção. Depois, comparar viagens suficientemente semelhantes quanto a produto, condição inicial, rota, duração e critérios de recebimento.
O acompanhamento deve separar quantidade descartada, rejeições, desvalorização comercial e custos adicionais. Uma rejeição não significa necessariamente descarte; somar ambos sem rastrear o destino pode duplicar a perda.
Também convém acompanhar a parcela perdida sobre a quantidade transportada, além do total por viagem. Assim, uma carga menor não parecerá mais eficiente apenas por gerar menos quilos de perda. As causas precisam ser investigadas: temperatura não deve receber automaticamente a responsabilidade por toda avaria.
No cálculo econômico, entram sensores, instalação, integração, manutenção, análise e trabalho operacional. Só depois cabe confrontar esses custos com benefícios medidos, sem tratar previsões do fornecedor como economia realizada.
O ganho ambiental também depende de evidência
Evitar desperdício é um objetivo pertinente de ESG, mas o teste relatado não quantifica alimentos poupados nem emissões evitadas. Qualquer alegação ambiental exige acompanhar o destino dos produtos e os efeitos da intervenção sobre a operação.
Se houver mudança no consumo de energia ou combustível, ela deve entrar na avaliação. Como na comparação de emissões do frete contratado, as bases precisam ser equivalentes antes de atribuir melhora ao projeto.
O próximo passo não é comprar um gêmeo digital porque o baú apresentou diferenças térmicas. É verificar se o problema existe na operação, localizar suas causas e testar uma resposta mensurável. A tecnologia ganha valor quando ajuda a preservar alimento com resultado comprovado — não apenas quando produz um mapa mais detalhado.
Este conteúdo foi produzido com apoio de inteligência artificial e revisado pela equipe editorial da Live University.
Clarissa Monteiro Vilhena é a especialista de ESG do Portal do Supply Chain. Cobre escopo 3, due diligence de fornecedores, rastreabilidade e as regras internacionais que chegam à cadeia brasileira pela exigência do cliente. Antes de publicar uma meta, pergunta qual é a linha de base e quem verificou.
